sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Bruxa Rendeira (Parte 1) - A Vizinhança

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Era Mariquinha Fonseca
Mulher velha e rendeira
Na água nascente do morro
Era só mais uma lavadeira

Passava o tempo adivinhando o vento
Passava o vento e a cada um que ia dizia em pensamento
“Ó-lhó-lhó! Esses mandriões que passam
Pena que só passam e vão”

Na vizinhança havia parteiras e madrinhas
Moças solteiras e homens Caxias
 E todos diziam que a bruxa era Mariquinha:
“Que diabos essa velha que sempre varria o terreiro sozinha”

As crianças do lugar jogavam bola
Pintavam o sete roubavam araçás e carambolas
Mas queria ver correrem e no vento levantar poeira
Era quando avistavam na esquina a bruxa rendeira

Bispavam as fofoqueiras e beatas de plantão
Diziam que ouviram falar em bruxaria nas bandas do Ribeirão
Zé Venâncio jogava a rede e do mar não tirava nem o que comer
E criam todos que a bruxa rendeira era o que fazia e não fazia acontecer

Velho Maneco criado e nascido no lugar
Ia sempre a cidade para beber e para jogar
Descia pela curva dos Limões e voltava para o sul
Um dia viu a bruxa e se jogou na enseada azul

Cada dia de domingo até o padre no sermão dizia
Que a bruxa era o motivo de reza forte na homilia
Como se fossem Homeros sem Ilíadas
“Mariquinha nunca usou saia rodada e florida”

Em tempos de dança de boi
A única casa da rua da vila fechada
Era de mariquinha
Mulher bruaca que por tudo era amargurada

Ninguém, nem mesmo Zé Messias ou Maria Regina
Sabiam como a bruxa passou a ser de todos o vermelho da retina
Porém ninguém nunca parou para ver os cânticos
E sempre culpavam Mariquinha pelos bois vadiarem no Atlântico

Viva a prece de Muriel moradora mais velha
Já tinha ouvido falar que a bruxa tinha uma fila Célia
Pois sendo filha de Mariquinha a bruxa dava atenção
Todo dia de hábitos e terço na mão

Desde então Mariquinha queria casar a filha
Se viu nos sonhos apagados por Celia que brilha
Na fé dos homens e a bruxa maldizendo os santos
Enquanto o povo aos pés do cordão sempre aos prantos

Mesmo que na reza das beatas
Mesmo que na cavalgada em duras patas
O povo se amotinava sondando a vida inteira
Os passos da bruxa rendeira...  

(Elian Woidello)

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