1
Era Mariquinha Fonseca
Mulher velha e rendeira
Na água nascente do morro
Era só mais uma lavadeira
Passava o tempo adivinhando o vento
Passava o vento e a cada um
que ia dizia em pensamento
“Ó-lhó-lhó! Esses mandriões
que passam
Pena que só passam e vão”
Na vizinhança havia parteiras e madrinhas
Moças solteiras e homens Caxias
E todos diziam que
a bruxa era Mariquinha:
“Que diabos essa velha que sempre varria o terreiro
sozinha”
As crianças do lugar jogavam bola
Pintavam o sete roubavam araçás
e carambolas
Mas queria ver correrem e no
vento levantar poeira
Era quando avistavam na
esquina a bruxa rendeira
Bispavam as fofoqueiras e beatas de plantão
Diziam que ouviram falar em bruxaria nas bandas do Ribeirão
Zé Venâncio jogava a rede e do mar não tirava nem o que
comer
E criam todos que a bruxa rendeira era o que fazia e não
fazia acontecer
Velho Maneco criado e nascido no lugar
Ia sempre a cidade para beber
e para jogar
Descia pela curva dos Limões e
voltava para o sul
Um dia viu a bruxa e se jogou
na enseada azul
Cada dia de domingo até o padre no sermão dizia
Que a bruxa era o motivo de reza forte na homilia
Como se fossem Homeros sem Ilíadas
“Mariquinha nunca usou saia rodada e florida”
Em tempos de dança de boi
A única casa da rua da vila
fechada
Era de mariquinha
Mulher bruaca que por tudo era
amargurada
Ninguém, nem mesmo Zé Messias ou Maria Regina
Sabiam como a bruxa passou a ser de todos o vermelho da
retina
Porém ninguém nunca parou para ver os cânticos
E sempre culpavam Mariquinha pelos bois vadiarem no Atlântico
Viva a prece de Muriel moradora mais velha
Já tinha ouvido falar que a
bruxa tinha uma fila Célia
Pois sendo filha de Mariquinha
a bruxa dava atenção
Todo dia de hábitos e terço na
mão
Desde então Mariquinha queria casar a filha
Se viu nos sonhos apagados por Celia que brilha
Na fé dos homens e a bruxa maldizendo os santos
Enquanto o povo aos pés do cordão sempre aos prantos
Mesmo que na reza das beatas
Mesmo que na cavalgada em
duras patas
O povo se amotinava sondando
a vida inteira
Os passos da bruxa rendeira...
(Elian Woidello)
